quarta-feira, 2 de junho de 2010

As ferramentas neurais da linguagem

Esse artigo não tem nada de mais, mas dá pro gasto, ajuda a consolidar conhecimentos. Quem não conhecia, fica conhecendo o trabalho de Evelina Fedorenko e Nancy Kanwisher, além do estudo de Aaron Newman. Vou traduzir os três primeiros parágrafos, e se o leitor ficar interessado é só ir beber na fonte.

The Cerebral Linguistic Toolbox That Blows The Mind
May 28, 2010 by Robert Deyes

"Dependendo do tipo de gramática utilizado na formação de uma dada sentença, o cérebro irá ativar um certo conjunto de regiões para processá-la, como um carpinteiro procura numa caixa de ferramentas um grupo de ferramentas para realizar os diversos componentes básicos que formam uma tarefa complexa" (1). Esta foi a descrição oferecida por uma revisão sobre por que diversas regiões do cérebro humano são recrutadas para deslindar o significado de sentenças quando nos comunicamos uns com os outros (1). Pesquisas de ponta sobre a função cerebral, utilizando a ASL (linguagem americana de sinais) como plataforma especificaram os detalhes sobre exatamente como o cérebro realiza esse feito instantaneamente (1, 2).

Enquanto forma de comunicação, a linguagem de sinais de muitas maneiras não tem paralelos, porque as mensagens podem ser expressadas de duas maneiras. Em inglês, os 'sinalizadores' podem usar palavras ordenadas para transmitir sua mensagem (por exemplo, John gives his lunch to Mary). Mas eles também podem mover suas mãos de uma maneira que conectem de modo específico conceitos e idéias - o que os linguistas chamam de 'inflexão' (2). Em línguas como o alemão e o francês, as inflexões são facilmente identificáveis como sufixos que podem ser anexados aos finais de palavras para denotar, entre outras coisas, o caso ou o gênero da palavra ou o 'papel' que um sujeito ou objeto de uma sentença desempenha em uma dada interação (John giving lunch to Mary, no exemplo acima) (2). Mas a linguagem de sinais, nota o psicólogo da Rochester University, Aaron Newman, oferece 'uma oportunidade única para contrastar diretamente esses dois meios de marcar papéis gramaticais dentro da mesma linguagem' (2).

Newman empregou a fMRI para se concentrar nas atividades cerebrais espaço-temporais que acompanham tanto a ordem das palavras como a comunicação baseada na inflexão. O que ele revelou foi notável. Existe uma rede de regiões cerebrais, incluindo o córtex prefontal dorsolateral (DLPC), o sulco temporal superior e posterior (STS), o núcelo caudado, o giro temporal médio (MTG), o giro angular (AG) e o giro frontal inferior esquerdo (IFG), ativas (ou operantes. Pedro) durante tanto a interpretação da ordem das palavras como o processamento da inflexão (2). Existem diferenças seriamente significativas na 'ponderação relativa' da ativação dessas regiões, dependendo de qual desses dois métodos de transmissão de mensagem está sendo utilizado (2). O DLPC e o AG do hemisfério direito são mais ativamente dominantes quando sentenças onde importa a ordem de palavras nos são apresentadas. Contrastando com isso, o MTG e o STS posterior estão mais ativos durante o processamento da inflexão (2). A conclusão ampla a que se chegou através dos resultados desse estudo é que 'partes específicas do sistema neurocognitivo recrutadas para o processamento gramatical dependem do tipo de informação que deve ser processado' (2)
.

1. Aaron Blank (2010) Sign Language Study Shows Multiple Brain Regions Wired for Language, http://www.rochester.edu/news/show.php?id=3610

2. Newman AJ, Supalla T, Hauser P, Newport EL, & Bavelier D (2010). Dissociating neural subsystems for grammar by contrasting word order and inflection. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 107 (16), 7539-44 PMID: http://www.pnas.org/content/107/16/7539.full.pdf+html

3. Evelina Fedorenko, Functional localization in fMRI studies of language, See http://www.mit.edu/evelina9/www/funcloc.html

4. John Eccles (1991) Evolution Of the Brain, Creation Of The Self, Routledge Press, London, p.96

Neuroeletrodinâmica


The essence of brain function consists in how information is processed, transferred and stored. Current neurophysiological doctrine remains focused within a spike timing paradigm, but this has a limited capacity for advancing the understanding of how the brain works. This book puts forward a new model; the neuroelectrodynamic model (NED), which describes the intrinsic computational processes by the dynamics and interaction of charges. It uses established laws of physics, such as those of classical mechanics, thermodynamics and quantum physics, as the guiding principle to develop a general theoretical construct of the brains computational model, which incorporates the neurobiology of the cells and the molecular machinery itself, along with the electrical activity in neurons, to explain experimental results and predict the organization of the system. After addressing the deficiencies of current approaches, the laws and principles required to build a new model are discussed. In addition, as well as describing experiments which provide the required link between computation and semantics, the book highlights important concepts relating the theory of information with computation and the electrical properties of neurons. The NED model is explained and expounded and several examples of its application are shown. Of interest to all those involved in the fields of neuroscience, neurophysiology, computer science and the development of artificial intelligence, NED is a step forward in understanding the mind in computational terms.

Neuroelectrodynamics: Understanding the Brain Language
D. Aur & M.S. Jog
IOS Press 2010 252 pages PDF 7,2 MB
http://www.megaupload.com/?d=M3LMGDNB ou
http://uploading.com/files/a4a48c39/1607500914Neuroelectrodynamics.rar/

terça-feira, 1 de junho de 2010

Deadstring Brothers - 27 Hours (Muito bom!)



Deadstring Brothers - 27 Hours .mp3
Found at bee mp3 search engine

http://dl.getdropbox.com/u/607532/Deadstring Brothers - 27 Hours.mp3

Terrence Deacon


Terrence Deacon é professor de antropologia biológica e linguística na University of California-Berkeley. Suas pesquisas combinam biologia evolutiva humana e neurociência, com o propósito de investigar a evolução da cognição humana. Seu trabalho vai da neurobiologia celular-molecular baseada em laboratório ao estudo dos processos semióticos básicos da comunicação animal e humana, especialmente a linguagem. Ele é autor de The Symbolic Species: The Co-evolution of Language and the Brain. Nesse mesmo site de onde levantei essas informações, há uma entrevista enorme de Deacon com David Boulton, além de outras entrevistas disponíveis com muitos pesquisadores do primeiríssimo time como: G. Reid Lyon, Keith Stanovich, Marilyn Jagger Adams, Sally Shaywitz, Louisa Moats, Paula Tallal, John Searle e Christof Koch, além de uns vinte outros.

Deacon fez grande sucesso na Evolang 2010, realizada em Utrecht (Holanda, em abril). A Evolang, uma importante conferência bianual sobre as origens da linguagem, foi aberta esse ano com a apresentação de Maggie Tallerman, da Newcastle University (UK), defendendo o conceito de uma 'faculdade da linguagem', mas Blair Bolles, um escritor de textos técnicos que publica o blog Babel's Dawn - sobre as origens da fala - relatou que estava presente em Utrecht e que a grande discussão que se esperava nessa Evolang 8 é se o cérebro inclui um módulo dedicado ao processamento da linguagem.

Bolles relata ainda que estava na Evolang 7, efetuada em Barcelona há dois anos, e que na época publicou uma postagem chamada 'Mudança de Paradigma', onde havia chegado à conclusão de que a Gramática Gerativa não era mais a abordagem dominante. A apresentação de Tallerman, diz ele, convenceu-o de que a tal mudança de paradigma não era tão definitiva assim.

Deacon fez a apresentação que fechou a Evolang desse biênio, e segundo Bolles, foi a mais importante de todas. Ele a descreve (não deixe de ler seus comentários completos no Babel's Dawn, na postagem Grand CRU d'Utrecht):

"O forte da apresentação de Deacon foi que ele descreveu um mecanismo das modificações cerebrais que sustenta a linguagem. A antiga visão de que as funções da linguagem estão confinadas a poucas regiões, como as áreas de Broca e de Wernicke, ou mesmo ao hemisfério esquerdo, não mais se sustenta. O processamento da linguagem envolve uma complexa coordenação entre sistemas múltiplos. Mas o cérebro humano moderno é uma aquisição relativamente recente. Como é que essa complexidade evolui e se torna coordenada?

Deacon propõe um cenário em três fases:

1. o cérebro primata padrão, no qual as áres do mnesencéfalo (partes antigas do cérebro) controlam as comunicações emocionais vocais.
2. Uma duplicação da uma seção do genoma leva à 'seleção relaxada' e a uma extensa conversa cruzada entre diversos sistemas corticais cerebrais (partes novas do cérebro).
3. A 'seleção transparente' (unmasked selection) fixa uma nova coordenação funcional e dirige a reorganização anatômica do cérebro
".

AQUI v. encontra o artigo On the Human: Rethinking the natural selection of human language, de Deacon, onde ele discute muitos dos temas abordados na entrevista citada, inclusive as 'três fases do cenário' acima. Esse artigo é complementado por comentários de profissionais como Mark Turner, Derek Bickerton, Alf Hornborg, Lorenzo Magnani, T. Givón, Slawomir Wacewicz, Salikoko S. Mufwene, Leigh van Valen, Sue Savage-Rumbaugh, Frederik Stjernfelt, Charles Wolverton, Ajit Varki, Liane Gabora, e termina com uma resposta final de Deacon (que fez algumas intervenções na discussão dessa galera). E estando no site On the Human.org , não deixe de ver os outros excelentes artigos que lá estão hospedados (na seção 'Forum') e disponíveis... Oh, estando lá, também veja os artigos da revista Dedalus, em 'Guiding Papers'. A seção 'In the News' também é legalzinha. Em resumo, bon voyage.

Processamento de informação no recém-nascido - os interneurônios

Mechanism Found That Prepares the Newborn's Brain for Information Processing

ScienceDaily (May 16, 2010) - Juntamente com colegas franceses, pesquisadores da University of Helsinki descobriram um mecanismo no centro de memória do recém-nascido que ajusta o amadurecimento do cérebro para o processamento de informação que é necessário em sua vida posterior.

Os neurônios do cérebro de um recém-nascido estão conectados de maneira bastante desorganizada. Em meio ao caos, eles estão procurando contato uns com os outros, e apenas mais tarde são capazes de operar como redes neurais interativas.

Muitas operações cognitivas como atenção, memória, aprendizagem e certos estados de sono baseiam-se em interações rítmicas de redes neurais. Por um longo tempo os pesquisadores se interessaram em encontrar o estágio de desenvolvimento do cérebro no qual as características funcionais e as interconexões estivessem suficientemente desenvolvidas para estas sutís funções cerebrais.

Os protagonistas principais desse processo de amadurecimento incluem um tipo de célula nervosa chamada interneurônio, e pesquisas recentes esclarecem seu desenvolvimento funcional. Os pesquisadores notaram que a atividade dos interneurônios se modifica dramaticamente durante o início do desenvolvimento. No centro de memória do cérebro, eles descobriram um mecanismo que ajusta as modifcações da atividade dos interneurônios.

Os interneurônios são um tipo de células de controle. No sistema nervoso de um recém-nascido, eles promovem a criação de contatos entre células nervosas, e por outro lado impedem a atividade rítmica prematura das redes neurais. Durante o desenvolvimento, o papel controlador se modificará, e o resultado é que a rede neural se torna mais eficientemente rítmica. Isto pode ser visto, por exemplo, no fortalecimento do sinal do EEG durante o sono.

O mecanismo que ajusta a atividade dos interneurônios está relacionado à fase do desenvolvimento que prepara o cérebro para processar e manipular (sorry) as informações que são necessárias posteriormente. A descoberta também pode oferecer meios mais detalhados para se intervir nos distúrbios elétricos das redes neurais em desenvolvimento, como a epilepsia.


Artigo original:
High Firing Rate of Neonatal Hippocampal Interneurons Is Caused by Attenuation of Afterhyperpolarizing Potassium Currents by Tonically Active Kainate Receptors
M. Segerstrale, J. Juuri, F. Lanore, P. Piepponen, S. E. Lauri, C. Mulle, T. Taira
Journal of Neuroscience, 2010; 30 (19): 6507
DOI: 10.1523/JNEUROSCI.4856-09.2010

Outros artigos de interesse:

Molecules and mechanisms involved in the generation and migration of cortical interneurons
Luis R Hernández-Miranda, John G Parnavelas and Francesca Chiara 2010
Department of Cell and Developmental Biology, University College London

Migratory Response of Interneurons to Different Regions of the Developing Neocortex
Joanne M. Britto, Kunihiko Obata, Yuchio Yanagawa, & Seong-Seng Tan 2006

GABAergic Hub Neurons Orchestrate Synchrony in Developing Hippocampal Networks
P. Bonifazi, M. Goldin, M. A. Picardo, I. Jorquera, A. Cattani, G. Bianconi, A. Represa, Y. Ben-Ari, R. Cossart 2010

Diagnosticando autismo


Um livro novinho sobre um assunto que tem dado o que falar na imprensa e nos trabalhos acadêmicos do mundo todo. Vamos ver se o livro esclarece algo em definitivo (na medida do possível, é claro).

Diagnosing Autism Spectrum Disorders: A Lifespan Perspective is the first book of its kind to provide authoritative information for medical and mental health professionals on how to properly evaluate and diagnose autism spectrum disorders in individuals of all ages.

* The first book of its kind which demonstrates how to conduct an appropriate diagnostic interview to assess a child for an Autism Spectrum Disorder
* Considers the issues of Autism Spectrum Disorders in children, teenagers, and adults
* Aimed at both medical and mental health professionals
* Includes an in-depth treatment of the entire diagnostic process

Diagnosing Autism Spectrum Disorders: A Lifespan Perspective
Donald P. Gallo

Wiley; 1 edition (June 15, 2010) 538 pages PDF 2 MB
http://www.megaupload.com/?d=3SHPDA5N